Dores de amor e ciúmes estão entre os temas mais antigos da literatura.
E é em torno da paixão, do desejo e da idealização da pessoa amada que gira o conflito do protagonista de Tango Feroz, romance de estreia de Fabián Echegaray.
Puán foi bloqueado por Lisa, mas é ele quem permanece preso. Preso à lembrança do corpo, da voz, das contradições e dos sinais que ele insiste em interpretar como prova de amor. Entre a confissão íntima e o delírio analítico, ele revisita uma relação marcada por desejo, ambiguidade e ressentimento, enquanto tenta reconstruir também a história da mulher que o expulsou de sua vida. […] (sinopse do livro).
Resenha por Cyntia Silva
Puán é um homem de meia-idade, que se encontra no limbo, após o término do relacionamento com Lisa, uma mulher da mesma faixa etária. Mas pessoas maduras ainda sofrem por amor? Ainda se apaixonam de forma passional? Esse sentimento não estaria reservado a adolescentes e jovens? Não é o que nos mostra o protagonista de Tango. Como destaca a sinopse: “o que parecia ser a história de um amor perdido revela-se, pouco a pouco, uma investigação sobre a mentira mais persistente: aquela que contamos a nós mesmos”.
Três homens, três tribunais
Durante minha leitura, lembrei-me, fortemente, de outros dois personagens clássicos da literatura: Bentinho, de Dom Casmurro, de Machado de Assis; e Iago, o manipulador de Otelo, de Shakespeare. Iago fabrica uma narrativa; Bentinho é um narrador não confiável. Em Tango Feroz, os relatos do protagonista são claramente unilaterais. O que sabemos sobre Lisa é o que nos conta Puán. A imagem que teremos dela será construída a partir das palavras dele: de suas reflexões solitárias e das conversas de bar com Ritinha e Feldman, amigos com quem pensa em voz alta.
Otelo é enganado pelas intrigas de Iago, que, por ciúme e inveja, o manipula e monta uma narrativa que o induz a acreditar que Desdêmona (mulher de Otelo) o está traindo. Bentinho, por sua vez, é o próprio Iago: narra, acusa e condena Capitu, que nunca ganha voz. Machado de Assis, genialmente, constrói a história de forma ambígua e, até hoje, debatemos se a mulher “com olhos de ressaca” traiu ou não Bentinho.
Se o lenço de Desdêmona e os olhos de Capitu viram provas de traição na mente de Otelo e de Bentinho, Puán faz o caminho inverso. Mas com o mesmo método. Não quer provar a traição, quer provar o amor de Lisa e que o que viveram era mais do que uma paixão unilateral. Por isso o romance de Fabián me fez lembrar de Bentinho e Iago: Puán revisita gestos, recolhe indícios, interpreta o ambíguo a seu favor.
Puán reclama que os anúncios algorítmicos parecem ler sua dor. O “Iago contemporâneo” não precisa sussurrar no ouvido de ninguém. O feed alimenta a obsessão sozinho, e os aplicativos oferecem substitutos e comparações sem fim.
Enquanto Capitu não fala, Lisa bloqueia. Nos dois casos, a mulher sai da cena e o homem fica com a única versão. Até a história de Lisa (a infância, os casamentos, as fugas) chega a nós filtrada por Puán. A pergunta que fica para o leitor: quanto daquela Lisa é ela, e quanto é a personagem que ele precisa que ela seja? Tango Feroz nos chega num momento em que as mulheres sentem o cheiro do patriarcalismo de longe. E é Ritinha quem vai carregar a bandeira e expor o machismo do amigo.
Amores maduros em tempos líquidos
Depois dos 50, ninguém ama do zero. É o que nos diz o senso comum. A bagagem é grande: relacionamentos, filhos, dores e versões já editadas de si. Mas Puán ama tal qual um adolescente, ainda buscando uma versão idealizada de mulher. Sabe que contamos mentiras a nós mesmos, só que prefere não encarar a realidade.
Em Tango Feroz, os aplicativos de namoro surgem como a nova arena. Porém, para os personagens, que não cresceram no mundo digital, é a novidade à qual precisam se acostumar. O bloqueio, ao qual recorre Lisa, é o fim sem desfecho, o término sem conversa, tão comum nos amores de aplicativo em qualquer idade. Entretanto, dói diferente quando se achava que a maturidade protegeria disso.
Bentinho narra sua história já velho e nos conta sobre a juventude. O ciúme dele é memória, reconstruída de longe para justificar a solidão. Puán vive a obsessão no presente. Não há a distância do velho que relembra. É um homem maduro em pleno furacão, como um jovem, e isso desmonta a ideia de que a idade traz serenidade amorosa. O desejo não morre. Lembranças eróticas, aplicativos, viagens: o romance traz o sexo na maturidade sem pudor nem caricatura.
A força de Lisa atravessa o filtro de Puán. A mulher acima dos 60 costuma ser invisível ou assexuada na ficção. Lisa é magnética, busca o desejo e é ela quem tem o poder de encerrar.
A leitura de Tango Feroz foi rápida e leve pra mim. Fabián tem uma linguagem que mistura rancor, comicidade e ironia. O português com sotaque argentino e pitadas de inglês revela seu estilo viajante. As passagens ensaísticas, em meio à ficção, trazem para a cena a bagagem acadêmica do autor, ultrapassando as fronteiras entre os gêneros sem a menor cerimônia. Fica o convite à leitura.
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Tango Feroz
Fabián Echegaray.
São Paulo: Editora Patuá, 2026.
134 páginas.ISBN: 978-65-281-0547-2
Gênero: romance

